11 de dezembro de 2010

Hector Berlioz





Ela era britânica. Seu nome, Harriet Smithson. Quando o compositor francês Hector Berlioz a viu no palco, interpretando Ofélia, em Hamlet, de William Shakespeare, imaginou ter encontrado ali o amor de sua vida. Na verdade, segundo consta, teria se apaixonado duplamente. Por Harriet e pela obra de Shakespeare. Berlioz decidiu, então, casar com as duas. Com Harriet Smithson, na igreja. Com a obra de Shakespeare, na música.

Harriet, inicialmente, o desprezou. "Se você não almeja minha morte, em nome da piedade (não ouso dizer do amor), faça-me saber quando poderei vê-la", escreveu-lhe um suplicante Berlioz. Em vão. Só após sofrer um acidente, fraturar uma perna e ser alvo de uma campanha de solidariedade organizada pelo músico, a moça cedeu.

Os dois, Harriet e Berlioz, casaram e tiveram um filho, Louis. A relação, porém, durou pouco. Cerca de um ano depois, após muitas traições da parte dela e uma montanha de dificuldades financeiras da parte dele, estavam separados. O amor pelo menos serviu de inspiração, ainda em sua fase platônica, para Berlioz compor, em 1830, a Sinfonia fantástica, uma de suas obras-primas.

Já o casamento do compositor com a obra de Shakespeare foi mais duradouro. Amante da literatura, Berlioz tornou-se um pioneiro da chamada "música de programa", isto é, uma obra musical inteiramente baseada em um romance ou poema, gênero também conhecido como "poema sinfônico". De Shakespeare, em 1839, Berlioz transformaria Romeu e Julieta em sinfonia e, em 1860, baseado em Muito barulho por nada, comporia a ópera Béatrice et Bénédict. "Desabando inesperadamente sobre mim, Shakespeare me fulminou. Reconheci a verdadeira grandeza, a verdadeira beleza e a verdadeira verdade dramáticas", escreveu.

O grande problema para Hector Berlioz, que nasceu em 11 de dezembro de 1803 em Grenoble (França), sempre foi conseguir sobreviver como músico e compositor. Houvesse obedecido às determinações familiares, teria seguido a profissão de juiz, como muitos de seus parentes, ou de médico, como o próprio pai. Para conseguir algum sustento, dedicou-se ao jornalismo e escreveu crítica musical no Journal des Débats, em Paris. Detestava aquele trabalho: "Escrever insignificâncias a respeito de insignificâncias, fazer mornos elogios a obras insuportavelmente maçantes!", reclamava.

Em um momento em que o cenário musical parisiense estava dominado pela ópera, era mesmo de se esperar que a música sinfônica e instrumental não encontrasse muitos adeptos. Assim, as execuções das obras de Berlioz resultaram em retumbantes fracassos. Após compor o seu Réquiem, uma das músicas mais conhecidas nesse gênero até hoje, o compositor submeteu-se ao constrangimento de oferecer a obra para sucessivos funerais, até finalmente conseguir vê-la executada.

"Tenho certeza de que conseguirei me destacar com a música. Quero ser alguém, deixar na Terra rastros de minha existência", registrou Berlioz em suas memórias. A versão musical que compôs para Fausto, de Goethe, intitulada A danação de Fausto, foi apresentada para um teatro praticamente vazio. "Nada em minha carreira me feriu mais do que esta inesperada indiferença", escreveu.

Com as portas de Paris fechadas para a sua música, Berlioz tornou-se regente de orquestra na Alemanha e, por sugestão do escritor Honorè de Balzac, partiu logo em seguida para a Rússia. Lá, conheceu e influenciou o chamado "Grupo dos Cinco" (Moguchaya Kuchka), que reunia os principais nomes do romantismo musical russo. Quando retornou à França, sua chegada foi jocosamente saudada pela imprensa parisiense como "a volta de Berlionovsky".

Depois do insucesso amoroso com a atriz Harriet Smithson, Berlioz casou-se pela segunda vez. Agora com Marie Recio, uma cantora espanhola que ficaria menos conhecida pelo seu limitado talento e mais pelas novas amarguras afetivas que traria ao compositor. O segundo casamento acabou quando Marie morreu, em 1862, vítima de um ataque cardíaco. Cinco anos depois, de febre amarela, morria também o filho único de Berlioz e Harriet Smithson, Louis.

Saxagenário, viúvo, sem o reconhecimento público, afundado em dívidas e com a saúde debilitada, Berlioz passou seus últimos anos de vida em completa solidão. Após nova viagem à Rússia, onde foi aplaudido febrilmente, morreu em sua casa, em Paris, no dia 8 de março de 1869.

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